Boi gordo rompe barreira histórica e arroba supera R$ 400 no mercado futuro

A cotação da arroba do boi gordo atingiu um patamar inédito ao ultrapassar a marca de R$ 400 na B3, a bolsa de valores brasileira. Durante as negociações, os ganhos foram renovados com o contrato voltado para dezembro negociado a R$ 402. Contudo, os valores futuros não traduzem de forma automática a realidade do mercado físico, espaço onde ocorrem as transações de animais destinados ao abate.

Fatores que explicam a alta na bolsa

De acordo com o coordenador de inteligência de mercado da Safras & Mercado, Fernando Iglesias, o cenário atual é ditado por um ambiente de oferta bastante restrita aliado a uma procura aquecida. Entre os diversos vetores avaliados pelos agentes econômicos, a projeção de compras elevadas por parte da China assume protagonismo.

“Os contratos com vencimento até fevereiro, todos acima de R$ 400 por arroba, refletem principalmente a expectativa de forte demanda chinesa”, afirma Iglesias.

Retenção de matrizes e oferta restrita

A disponibilidade de animais para abate também joga luz sobre o encarecimento dos papéis com vencimento no início de 2027. Felipe Fabbri, consultor de mercado da Scot Consultoria, aponta que a diminuição no abate de fêmeas, somada à taxa menor de ocupação nos confinamentos, resulta em um volume menor de bovinos prontos para terminação.

“Fêmea já está sendo retida para a produção de bezerro. Ou melhor, tem fêmea, mas um volume menor do que há um ano atrás”, diz Fabbri.

O especialista ressalta ainda que, por questões sazonais, o pecuarista costuma desfrutar de maior poder de barganha no transcurso do primeiro semestre, período em que as condições das pastagens auxiliam na estratégia de segurar os animais na propriedade. “Isso ajuda numa precificação um pouco mais alta, numa expectativa de precificação mais alta por parte da B3”, afirma.

Consumo interno aquecido e impacto do câmbio

Além do cenário externo, o fortalecimento do consumo interno de carne bovina colabora para a escalada dos preços da arroba. Para Fabbri, a movimentação da economia e a injeção de capital no mercado doméstico sustentam o apetite do consumidor.

Entre os elementos destacados pelo consultor aparecem a recuperação da renda per capita, a queda nos índices de desemprego e a desoneração do Imposto de Renda para faixas salariais de até R$ 5 mil. Para o encerramento do ano, ele menciona ainda o impacto do décimo terceiro salário e a contratação de temporários, fatores capazes de manter o ritmo das vendas.

O câmbio figura como outro elemento de sustentação para a margem de pagamento dos frigoríficos exportadores. Com a cotação do dólar oscilando entre R$ 5,30 e R$ 5,50, a conversão das vendas externas para a moeda nacional impulsiona o faturamento das empresas do setor.

“Esse câmbio mais próximo aí de R$ 5,30 a R$ 5,50 muda muito a dinâmica de faturamento do exportador”, diz Fabbri, reforçando que essa conjuntura dá margem para ofertas maiores pela arroba diante de um mercado internacional firme.

Incertezas regulatórias na relação com a China

Apesar do otimismo quanto às vendas para o exterior, a possível implementação de um sistema de controle de cotas pelo Brasil introduz um elemento de cautela sobre o volume de proteína despachada para o mercado chinês. Iglesias pontua que persistem dúvidas sobre os próximos passos do governo federal em relação ao tema.

“Sem um processo interno de gestão de cota, o que se imagina é que saiam aí até 200 mil toneladas mensais de carne bovina do Brasil para a China”, afirma o coordenador da Safras & Mercado.

Por fim, o analista reforça que a definição regulatória será decisiva para o rumo das negociações nas próximas semanas. “Ao que tudo indica, um processo de gestão de cota pode ser anunciado nas próximas semanas”, diz.

Com informações de Canal Rural — Pecuária

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